Uma lista de compras

Nas autárquicas, numa sociedade da informação, pode ser complicado obter e refletir sobre as várias alternativas para um concelho, atendendo a todo o ruído. São três órgãos para os quais elegemos, multiplicam-se as candidaturas, recebemos informação de outras geografias também com essa multiplicidade e os espaços de disputa de ideias não abundam. Por Santa Maria temos a sorte de ter meios de comunicação locais que garantem a existência de espaços de confronto de ideias, ou, pelo menos, da sua divulgação. Como temos um ambiente associativo rico, tenho esperança que se juntem ao apelo democrático forças vivas que promovam debates setoriais e com a participação do público, permitindo que os eleitores façam a sua escolha com informação e em consciência.

No meio deste cenário, haver um espaço de comentário ou análise de política local, é ainda uma raridade maior. Em Santa Maria, a rádio do Clubes ASAS do Atlântico junta duas pessoas, ligadas historicamente aos dois maiores partidos, que de há uns anos para cá, fazem o comentário algumas vezes ao ano. No comentário que saiu na passada sexta, o primeiro de dois sobre estas eleições, presumo, os comentadores deixaram-me a pensar num ponto que me parece crucial.

Disseram que um programa eleitoral não pode ser uma lista de compras, que quem se propõe a fazer muito, acaba por não conseguir concretizar. São tantos os aspetos que me parecem errados aqui.

Desde logo, há um enorme processo de simplificação: estamos a falar de umas eleições para mandatos de quatro anos para Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleias de Freguesia (bem como as Juntas que se constituem com base nelas). Dois órgãos mais dois vezes o número de freguesias. Tudo isso com um horizonte de quatro anos. Dizer que meia dúzia de medidas bastam, é ignorar a necessidade de substanciar e clarificar uma visão, é passar um cheque em branco.

Até se poderia apelar a uma capacidade de síntese para facilitar a vida ao eleitor que pretende informar-se das várias alternativas. Essa comunicação é assegurada pelos meios de campanha, desde as redes sociais aos panfletos. O programa eleitoral é o substrato de toda essa comunicação. Julgo que não rara a vez, confundimos um panfleto com um programa – até porque muitas vezes não existe programa, só panfleto como base textual.

Talvez se possa dizer que numas eleições para um poder de proximidade a pessoa constitua uma importância superior ao fator ideológico, do próprio programa. Confiarmos em alguém é o bastante para lhe darmos o nosso voto. O problema é que as pessoas mais competentes podem sê-lo trilhando um caminho que não pretendemos.

Tudo isto parece-me ir de encontro ao que já antes falámos: querem-nos fazer crer no inevitável. Reduzir as possibilidades do que pode ser feito. Quando dizem que ter muitas propostas é insensato, negam a impossibilidade de ser apresentada uma alternativa ao habitual. Fazem crer que tudo tem de ser de uma certa forma à exceção de uma ou outra prioridade. Parece-me que uma prova desta postura é o facto de afirmarem (à semelhança das regionais de 2024) que é preciso esperar pelos programas serem apresentados – que ainda nenhum tinha sido – para se analisar melhor as eleições, apesar da base do nosso já estar disponível desde o dia 1 de setembro.

Bem sei que ler as várias listas de compras, se existirem, é exaustivo, um trabalho para quem está muito indeciso entre as candidaturas. O mínimo a que apelo é que se faça o esforço para ter o mínimo de informação sobre as propostas, para que cada um escolha a melhor visão para os seus concelhos.