Quem não vir esta semana como uma de loucos, certamente vive alienado desta realidade – e digo-o com a maior das humildades intelectuais. Entre assuntos regionais, nacionais e internacionais, é difícil não ficar indiferente, pelo menos atónito, com a absurda falta de bom senso, de ponderação, de honestidade,… Confesso que no trabalho de estudo que tenho para a escrita deste tipo de artigos, fico sempre espantado em como tenho a sensação que as coisas aconteceram há mais tempo do que aconteceram: a loucura está num registo acelerado, que nos inunda de exemplos.
Nos Açores temo a Sata a anunciar que pretende transforma-se numa empresa de low cost – não o diz diretamente, mas para aí caminha. Com a desculpa do corte de custos, pretende-se desmantelar uma companhia com um excelente serviço de voo para a tornar mais atraente aos olhos de quem a poderá querer adquirir no processo da privatização. O nosso bem-estar nunca é uma prioridade.
A nível nacional presenciámos no sábado a uma manifestação contra a xenofobia que juntou mais de cinquenta mil pessoas – na sequência do triste episódio da Rua do Benformoso. Até o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, bispo José Ornelas, foi vocal na defesa desta manifestação que considerou «uma acção bonita de dizer que ‘nós não nos resignamos’». Ao mesmo tempo, contudo, umas poucas centenas juntaram-se ao Chega para uma contra-manifestação onde se afirmaram as mentiras e a retórica violenta e de fragmentação do costume. Nas redes sociais até se deram ao trabalho de falsificar os panfletos da outra manifestação. Montenegro, o nosso primeiro-ministro, contudo, considera que estão em causa «dois extremos» e que ele deve ser encarado como a figura da «moderação». Com isto equivale-se a xenofobia ao seu combate, equivale-se a defesa dos Direitos Humanos ao seu ataque. Não nos esqueçamos que Montenegro é a pessoa que afirma que o aumento real dos casos de violência doméstica é só uma «perceção», porque aquilo que acontece são mais denúncias, mas que depois atira que «Não é preciso que haja muitos crimes para que as pessoas se sintam inseguras»para justificar operações policiais desproporcionadas que relacionam criminalidade com imigração – algo desmentido pelos factos e pelo próprio primeiro-ministro em junho.Dúvidas houvesse, somos governados por condescendentes sádicos extremistas.
Muito disto passa com a conivência da comunicação social, na medida em que muito do comentário político nas nossas televisões se tornou um espaço de desinformação. Até o Eça é instrumentalizado por quem claramente nunca o leu.
Os maiores delírios, contudo, parecem ter sido os internacionais. Trump ameaçou com uma ação militar para controlar a Gronelândia (território autónomo da Dinamarca) e defendeu a anexação do Canadá, além de querer mudar o nome do «Golfo do México» para «Golfo da América». Trump quer seguir o exemplo de Putin e a Europa emudeceu.
No meio disto, o poder económico cada vez mais às claras intervém na política (dentro e fora de fronteiras). Já não bastava Musk disseminar informação falsa sobre a política europeia, numa clara interferência, como ainda decidiu apoiar abertamente partidos de extrema-direita como os neonazis alemães da AfD. A Musk juntaram-se Bezos a censurar a publicação de um cartoon humorístico do jornal em que é dono (exatamente 10 anos depois do atentado a Charlie Hebdo) e Zuckerberg, dono do Facebook, anunciou que a plataforma vai permitir qualquer conteúdo de desinformação e ajudará Trump a fazer frente a uma Europa que impede a «inovação» e uma América Latina com «tribunais secretos». Perderam a vergonha de mostrar que os únicos interesses que defendem são os seus.