Mais uma semana, mais uma confissão. Partilho aqui um acontecimento aterrador: perder o telemóvel. Perdê-lo no sentido de perder a vida que nele havia. Em maio algo de estranho que passava com o telemóvel, desligava-se quando lhe apetecia e liga-se quando lhe apetecia. Isto durou um fim-de-semana, até quando reparei em como o botão de desbloqueio já não estava centrado no orifício da capa: a bateria estava a expandir. Isto foi momentos depois de ele se ter desligado de vez. Numa semana já estava arranjado, através da garantia, e como novo. Na verdade, esse foi o maior problema: estava como novo, como se nunca tivesse sido usado, como se durante anos não fosse de incontáveis mensagens, fotografias e acessos a contas, com tudo já disposto num design personalizado (familiar?). Os maus hábitos de não criar regularmente cópias de segurança levaram a que praticamente tudo fosse perdido.
Designar esta perda de informação como aterradora é certamente denunciar uma vida de privilégio: que todos os males fossem esse. É o que se costuma designar como um problema primeiro-mundista. Ainda assim, abala-nos, como que se nos tira o chão. Há uma espécie de luto por vivências perdidas. Estou certo que não sou o único a descrever deste modo esta situação, pelo que me parece pertinente explorá-la, desbravando alguns caminhos que a possam explicar.
Desde logo, a questão que me parece fundamental: que são hoje estes equipamentos? Qual o lugar do telemóvel na ação humana? Não me parece suficiente falar-se em funcionalidade, é preciso ir ao significado. Estas indagações talvez possam soar algo insólitas, contudo garanto que se encaixam bem nas investigações de Filosofia da Tecnologia e as suas respostas poderão ajudar a pensar-se melhor sobre a técnica em geral.
Um enquadramento funcional afirmará o telemóvel como um mecanismo de mente estendida. Ou seja, utilizamo-lo como se fosse um segundo cérebro. Não se pense que este seja um fenómeno recente: a agenda cumpre o mesmo propósito, tal como qualquer coisa escrita que dares utilidade futuramente. O nosso cérebro não se tem de preocupar ativamente com algo, porque existe um apoio que o auxiliará. Perder o telemóvel é perder esse segundo cérebro. Será o segundo cérebro mais completo que tivemos: pela diversidade de funcionalidades e formatos, o que poderá justificar a sua perda ser maior que a perda da agenda – não é preciso recuar muito tempo para essa perda também ser vista como muito inconveniente.
A esta justificação falta uma dimensão afetiva. Deleguei nesse segundo cérebro aquilo que encarei como memórias. Ele era também garante de um património afetivo. Será que aquelas viagens aconteceram mesmo agora sem provas? Será que li aquele livro, agora que me vejo privado dos excertos que cristalizei?
Não sejamos ingénuos e também é preciso constatar o óbvio: também há uma dimensão afetiva no seu uso pessoal: o vício em as redes sociais, por exemplo – veja-se agora o recente julgamento da Meta.
Abre-se aqui a janela para se discutir as dependências potencialmente desastrosas que vemos surgirem, a forma como a técnica se parece servir de nós e não o contrário, mas permitam-me avançar sobre isso, para questões práticas e urgentes.
Quem gere, de facto, os nossos usos tecnológicos? A internet que está omnipresente e é fulcral para tantos propósitos, pode ser um negócio? É preciso falar numa democracia digital?
Só sei que aquela semana com um telemóvel tijolo foi ótima, mas voltei ao smartphone mal pude.