A cidade do Porto acolhe, neste final de junho, o festival literário Babel, promovido pela Fundação Livraria Lello. Com um desenho institucional peculiar, o festival associa o acesso à cultura à sustentabilidade do ecossistema livreiro local: os bilhetes para as sessões são adquiridos através da compra de livros em livrarias independentes e alfarrabistas da cidade. O modelo transforma o consumo cultural num ato de apoio comunitário direto, estabelecendo uma ponte feliz entre o debate de ideias e a economia do livro. É claro que muito se poderia dizer sobre o assunto, mas reconheçamos esta intenção.
Foi precisamente neste cenário que decorreu a sessão de abertura com o filósofo de origem sul-coreana Byung-Chul Han, radicado na Alemanha. Han é, na atualidade, um dos pensadores mais traduzidos, lidos e discutidos a nível global. O seu sucesso junto do grande público prende-se, em larga medida, com o formato da sua obra: ensaios breves, extremamente sintéticos, mas muito densos, capazes de capturar e categorizar as fraturas da nossa contemporaneidade.
Na base da sua intervenção esteve a sua obra mais célebre, A Sociedade do Cansaço (2010). Nela, Han propõe uma viragem conceptual profunda. O autor defende que transitámos da "sociedade disciplinar" dos séculos XIX e XX — teorizada por pensadores como Michel Foucault, baseada na coerção, no controlo imunológico e na oposição clara entre o "eu" e o "outro" (o estrangeiro) — para uma "sociedade da produção". Nesta nova matriz, a negatividade do controlo externo é substituída por um excesso de positividade. O indivíduo contemporâneo já não é coagido; é compelido a ser, voluntariamente, o "empresário de si mesmo".
Esta mudança redefine inclusive fenómenos como o racismo ou a xenofobia. O "outro" já não é visto como o inimigo externo e demonizado de outrora, mas sim sob uma perspetiva puramente utilitária. O preconceito moderno adquire contornos económicos, onde o estrangeiro passa a ser hostilizado não pela sua diferença cultural, mas porque é rotulado como um esbanjador de recursos.
A consequência mais perversa desta aparente liberdade é a autoexploração. Somos bombardeados com a narrativa da autorresponsabilidade absoluta e passamos a encarar o multitasking e a produtividade constante não como exigências laborais, mas como metas de realização pessoal. Esta engrenagem não deixa margem para a hesitação, para a falha ou para a contemplação. Quando fracassamos na tentativa de atingir o ideal de performance que nós próprios nos impusemos, o resultado coletivo é a exaustão generalizada e a proliferação de patologias neuronais, como a depressão e o burnout – “cada tempo tem as suas patologias”.
Para contrariar este esgotamento, Han recupera o que designa por "pedagogia do ver": a urgência de uma vida contemplativa, capaz de desacelerar, de criar bolhas de pensamento e de restabelecer uma abertura genuína ao mundo. Inspirando-se no pintor Paul Cézanne — que afirmava ser capaz de "ver os cheiros" —, o filósofo apela à nossa capacidade de tolerar o tédio e de reduzir os estímulos cénicos para recuperar a profundidade da experiência humana.
O seu diagnóstico clínico da modernidade justifica a homenagem que lhe foi prestada nesta vinda ao Porto: a inauguração, pela Fundação Livraria Lello, do Jardim do Pensamento, um espaço enriquecido com obras do arquiteto Álvaro Siza Vieira, desenhado para cultivar a quietude que a nossa era parece ter perdido.