Umas notas presidenciais

Estamos na derradeira semana das presidenciais que a 18 de janeiro indicam quem poderá ser o próximo presidente da República Portuguesa. Indicam, uma vez que muito provavelmente haverá uma segunda volta a 8 de fevereiro. Permitam-me partilhar algumas notas sobre este processo, bastante presente na comunicação social, mas afastado da cabeça dos portugueses, que «estão cansados de eleições».

Em primeiro lugar, uma nota técnica: porque não se está a usar o sistema que se montou em 2024, nas europeias, com recurso a cadernos de voto digitais e a possibilidade de voto em qualquer mesa? As eleições presidenciais são eleições com um só círculo, a única conta a fazer é a de quantos votos cada candidatura atingiu em todas as mesas de voto.

Preciso também de deixar a minha irritação sobre a questão de candidatos excluídos estarem nos boletins de voto: este assunto é sempre tratado como algo novo e como alvo de admiração, mas resulta de um procedimento que está previsto e calendarizado pela CNE, se querem falar no assunto, que se exponha num formato compatível com essa mudança. Isto só denota a superficialidade que tendemos a cair no debate público.

Passemos ao conteúdo político. Li recentemente uma reportagem (10/01/2026) da jornalista Paula Luz no Público sobre a candidatura de André Pestana. Numa parte do texto, é possível ler a descrição de uma interação do candidato presidencial com um vendedor de castanhas de 43 anos numa rua de Coimbra. O vendedor estava preocupado com um «amigo» que estava a ganhar mais com o subsídio de desemprego do que a trabalhar. Ao Pestana afirmar a impossibilidade disso acontecer, o vendedor «corrigiu-se» dizendo que se referia ao «rendimento mínimo» (RSI). Segundo a jornalista, Pestana explica detalhadamente como isso não é possível e como os valores são deturpados por discursos demagógicos. O candidato riposta com «Eu sou o único candidato que denuncia que eles estão todos a mamar. Até o Chega, que recebe cinco milhões de euros de subvenção, sabia?». Permitam-me citar o excerto que se segue na reportagem «[O vendedor] anui. Quando fica sozinho, volta a repetir ao PÚBLICO o discurso tantas vezes propalado por André Ventura.» Este cru jornalístico captura extraordinariamente: como desmontar racionalmente o discurso demagógico tem sido ineficaz; como se reconhece o papel dos mais fortes na degradação da vida, mas é mais fácil criticar os mais fracos; como cada um acha que é o único que trabalha a sério; como se mantém a ilusão de que a minha falta de dinheiro se deve ao estado social e não aos benefícios fiscais; como cada um tem a sua verdade.

Estas são umas eleições em que o voto útil menos sentido faz, afinal, já basta a segunda volta para votarmos no «menor mal». Podemos votar em quem de facto acreditamos. Isto não é importante numa visão romântica da política, é vital para a democracia que assim seja: votarmos com base no medo de algo não soa nada democrático. É triste que a maior parte dos presidenciáveis opte por tentar manipular o voto útil – tendo uma grande ajuda das sondagens na tentativa de moldar a opinião pública.

Preocupa-me à direita a popularidade que Cotrim de Figueiredo tem alcançado. Trata-se de um candidato para quem votar em Ventura é mau não porque significa um voto para Ventura, mas porque supostamente aproxima Segura da presidência. Entende-se o raciocínio pragmático e por isso mesmo é perigoso: a guerra partidária acima da defesa dos valores democráticos. Há já muito que aproxima Cotrim e Ventura, algo que fica ainda mais evidente com os dois a reconhecerem que apoiariam Passos Coelho – algo bastante revelador, se não tivermos memória curta; e não nos esqueçamos do papel de Seguro.