Vamos aprender a ouvir?

Aquilo que parece óbvio pode não o ser ou pode ser esquecido na prática. Por isso mesmo penso não ser redundante escrever este apelo.

Ninguém sabe tudo nem ninguém vive tudo. Contudo, isto não quer dizer que não devemos comentar o que desconhecemos, mas sim que devemos ouvir primeiro quem tem conhecimento de causa. Temos, portanto, de aprender a ouvir. 

Ouvir entidades e pessoas deve fazer parte da check list de qualquer agente político quando pretende emitir uma posição sobre um assunto. Mais uma vez, parece óbvio, não é? Pois, mas por experiência própria digo que não o é. Quando estamos cheios de ideias e palpites (ou interesses, que podem ser bem-intencionados ou não, para dizer de outra forma), essa avaliação ponderada e passiva passa despercebida. Queremos levar em frente a nossa visão. Precisamos de pessoas pró-ativas, precisamos de pessoas com pensamento crítico, mas o contexto existe e tem de ser tido em conta.

Nas últimas regionais tive a honra de encabeçar uma candidatura de ilha. Nessa aventura tive a oportunidade de construir um plano eleitoral que refletisse as nossas expectativas sobre a ilha. Estava (e estou) cheio de ideias, umas mais exequíveis que outras, que acabaram também, algumas, por ser acolhidas. O programa eleitoral refletiu, portanto, as posições das pessoas em torno da candidatura e daquelas que foram as conclusões de algumas reuniões que foram sendo feitas.

Quando começou a campanha, resolvemos visitar um conjunto de entidades que considerámos essenciais. Dessas reuniões saímos com mais propostas sobre os temas e com melhorias nas já existentes. Prioridades e experiência são fatores importantíssimos.

Para dar um exemplo concreto: há anos que a nossa escola se debate por um auditório (que chegou mesmo a ser orçamentado pelo executivo regional). Pessoalmente, estive nessa luta durante 4 anos, e obviamente que tinha de fazer parte do nosso programa. Ao reunir com a escola, percebemos que havia uma possível solução para relativizar o problema: aproveitar uma estrutura existente e melhorá-la. Apesar de considerarmos que isso não substitui a necessidade do auditório, percebemos que, no momento, isso seria o melhor a ser defendido, por ser um passo tomado na direção certa, ao lado de quem precisa.

Ninguém sabe tudo. Não é vergonha nenhuma pedir ajuda. Admitir que a nossa posição pode ser melhorada não é afirmar a nossa incompetência, mas reconhecer a nossa maturidade.

Não são raras as vezes que precisamos de desconstruir para construir. É justamente nesse princípio que se baseia o método socrático: no contexto da retórica, Sócrates fazia um diálogo com um outro participante numa dinâmica de perguntas e respostas. As perguntas do filósofo tinham o propósito de, em primeiro lugar, levar o outro a concluir que nada sabia ("Só sei que nada sei") e, por fim, que teria de partir em busca do conhecimento interior ("Conhece-te a ti mesmo"). Obviamente que este raciocínio era aplicado sobre questões conceptuais e não em relação à necessidade de se criar uma companhia de transportes inter-ilhas com submarinos. 

Mesmo assim, reivindico o essencial: ponderemos bem a nossa posição, reconhecendo as nossas restrições sobre a matéria e depois aventuremo-nos a perseguir a "verdade", junto de quem nos pode ajudar.