A ler o vento

No passado dia 4 de dezembro, na Cidade de Nova Iorque, o CEO da UnitedHealth Group foi assassinado pelas 19:00 com testemunhas próximas do local e várias imagens de câmaras de vigilância. A naturalidade e leviandade na concretização do crime foi um choque, mas o mais chocante estava por vir. Aqui, hoje, proponho-me a deixar algumas notas que me parecem percursos pertinentes para explorar este episódio.

Desde logo, o âmbito. Segundo as autoridades, as balas disparadas que vitimizaram Brian Thompson tinham escritas as palavras «negar», «defender» e «depor». Estas palavras estão a ser interpretadas como a sistematização das estratégias das seguradores norte-americanas para recusarem pagar seguros de saúde, tal como este livro de 2010 pretende expor: Delay, Deny, Defend: Why Insurance Companies Don't Pay Claims and What You Can Do About It. Esta interpretação tem sido vista como particularmente pertinente, uma vez que a UnitedHealth Group possui a Unitedhealthcare, uma enorme segurada, responsável por uma grande fatia dos seguros de saúde dos norte-americanos, este grupo é, aliás, a oitava maior empresa do mundo em termos de receitas. Recordemo-nos que nos Estados Unidos não existe um sistema nacional de saúde, a saúde não é vista como um direito universal, gratuita, os indivíduos têm de adquirir seguros de saúde, estando dependentes da sua aprovação para poderem pagar as consultas, exames, operações, tratamentos,… No caso desta empresa, um em cada três pedidos foi recusado, um número tão grande que foi implementada Inteligência Artificial para acelerar essas recusas (que tem uma margem de erro de 90%...).

Ora, se as pessoas são obrigadas a pagar por seguros, que têm sistematicamente aumentado o seu custo, e não vêm o retorno quando precisam, não é preciso muito para ver como este motivo não será descabido. Agora, ninguém deve ser morto por isso, nem é preciso dizê-lo, qualquer morte é uma tragédia, o que não é incompatível com a crítica daquilo que fez.

A verdade é que as reações nas redes sociais denotam uma relativização do assassinato: afinal, não é Thompson responsável por incontáveis mortes por negação de cobertura?, argumentam. Esta frustração é transversal ao espectro político, inundou qualquer rede social e as notícias do suspeito até nas revistas cor-de-rosa surgem. Parte da raiva que elegeu Trump por ser outsider em breve verá um governo com mais de uma dezena de multimilionários. Coloquemos em perspetiva estas noções de números enormes, que tornam difícil a nossa imediata compreensão da realidade: se cada euro corresponde a um segundo, para ter um milhão de euros seriam precisos 11,5 dias, para acumular um milhar de milhão (o billion norte-americano) seriam 31,8 anos! Como serão as respostas?

Permitam-me três notas: grande parte da falta de choque pelo assassinato em si advém da normalização da violência de armas (já houve 81 tiroteios em escolas só este ano); uma grande parte das reações ao suspeito foram no sentido de o tornar um sex symbol; por fim, a sua idolatria como justiceiro demonstra a nossa tendência ao culto do chefe.

Permitam-me terminar comAs Pessoas Sensíveis (Sophia de Mello Breyner Andresen):

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

[…]

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem”

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